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João Pessoa: a realidade do marketing turístico

Atualizada em 23/07/2026 às 12:14
Por Luane Monteiro de Araújo

Quando se pesquisa no Google por “Turismo em João Pessoa”, os primeiros resultados reforçam uma narrativa de sucesso. A cidade aparece como um destino em ascensão, com praias urbanas acessíveis, orla arborizada e qualidade de vida elevada. Em janeiro de 2025, a BBC News Brasil e o G1 destacaram João Pessoa como a “nova queridinha do verão do Nordeste”. As campanhas oficiais da Prefeitura e do Governo do Estado reforçam essa imagem, promovendo praias “paradísíacas”, “limpas” e “sustentáveis”. A cidade ficou em terceiro lugar na lista global de destinos em alta da Booking.com para 2025. 


Essa visibilidade tem gerado resultados concretos. Em janeiro de 2026, a Secretaria de Turismo (Setur) projetou uma média de 90% de ocupação hoteleira ao longo do mês, com picos de 100% durante o Réveillon. No Natal de 2025, a rede hoteleira chegou a operar com ocupação total. O fluxo turístico também mostra crescimento expressivo. Em 2025, o Aeroporto Internacional Presidente Castro Pinto registrou aumento significativo de passageiros: até dezembro, mais de 1,7 milhão de passageiros passaram pelo terminal, representando um acréscimo de mais de 225 mil pessoas em relação ao mesmo período de 2024. 


No entanto, surge uma pergunta incômoda: o que está sendo vendido nas campanhas reflete a realidade vivida nas mesmas praias que servem de cartão-postal? 


O contraste mais evidente é o problema recorrente do despejo de esgoto no mar, especialmente nas praias da orla sul e norte (Tambaú, Cabo Branco, Manaíra e Bessa). O que deveria ser um atrativo turístico se torna um risco ambiental e sanitário, principalmente durante a alta temporada, quando o número de visitantes e a ocupação dos estabelecimentos aumentam.


O Movimento Esgotei tem documentado e denunciado esses episódios com frequência. O coletivo registra “línguas negras” de esgoto misturado à drenagem pluvial avançando pelo mar, gerando revolta e mobilização nas redes. Essa pressão cidadã tem ajudado a manter o tema em evidência, mostrando que o problema não é ocasional, mas recorrente.


Em abril de 2026, a Justiça determinou medidas urgentes para conter o lançamento de esgoto, proibindo novas construções na orla sem capacidade comprovada de saneamento. A decisão, proferida na Ação Civil Pública, cobra um plano de ação da Prefeitura, Cagepa, Sudema e Governo do Estado. Isso significa que, apesar do crescimento turístico, a infraestrutura de saneamento não acompanhou a demanda, gerando riscos à saúde pública, à balneabilidade das praias e à própria economia local, já que turistas insatisfeitos podem deixar de retornar.


O Ministério Público da Paraíba (MP-PB) tem atuado com força-tarefa, audiências públicas e notificações a hotéis, bares e restaurantes por ligações irregulares de esgoto. Em janeiro de 2026, o MP-PB criou o Grupo Técnico Orla Limpa para intensificar fiscalizações, na tentativa de conter essa degradação. 


Orlando Jorge Barbosa de Araújo, de 80 anos, mora há 42 anos no bairro de Tambaú. Ele vivenciou a transformação da praia: “Quando me mudei, levava meus filhos ainda crianças para nadar no mar. A água era limpa, a areia era limpa. A gente frequentava a praia todos os dias”. Hoje, mesmo morando a poucos metros do mar, ele e a família não vão mais. “Pelo esgoto, pelo barulho, pela sujeira. Mudou muito”, relata. Seu depoimento ilustra o impacto direto na qualidade de vida dos moradores antigos: o que era espaço de lazer e convívio familiar tornou-se um local evitado, gerando perda de bem-estar e sentido de pertencimento.


A Prefeitura de João Pessoa tem investido recursos significativos em marketing e promoção turística. Apenas para o Carnaval Multicultural de 2026, o Ministério do Turismo repassou R$ 1,5 milhão à Fundação Cultural de João Pessoa (Funjope) para ações de divulgação. Esses investimentos, somados a outras campanhas institucionais, têm gerado resultados visíveis: alta ocupação hoteleira, crescimento no fluxo de turistas e o fortalecimento da imagem de João Pessoa como “nova queridinha do Nordeste”.


No entanto, os dados e relatos apresentados revelam uma realidade contrastante. Enquanto o marketing vende praias paradisíacas e qualidade de vida, o problema recorrente do esgoto nas praias expõe uma contradição grave: o modelo de turismo atual prioriza a atração de visitantes, mas não tem sido acompanhado por investimentos proporcionais em infraestrutura básica, especialmente saneamento.


O Ministério Público aponta que o saneamento básico é um direito fundamental do cidadão e responsabilidade primordial do poder público. Não adianta fiscalizar ligações irregulares de bares e hotéis se o sistema público de coleta e tratamento de esgoto não acompanha o crescimento da cidade. Essa discrepância é ainda mais preocupante quando se considera que áreas periféricas da capital enfrentam deficiências ainda maiores de saneamento.


O risco é que o dinheiro aplicado em marketing acabe sendo pouco eficiente a longo prazo. Turistas atraídos pelas campanhas podem se decepcionar com a realidade das praias e optar por não retornar ou não recomendar o destino. Assim, o ciclo virtuoso do turismo, que poderia gerar emprego e renda sustentável, fica comprometido.


Até o momento, as soluções apresentadas pela Prefeitura e pela Cagepa incluem operações de fiscalização (como a Orla Limpa), reuniões com o trade turístico e promessas de ampliação da rede de esgotamento. O MP-PB, por sua vez, cobra planos emergenciais e Termos de Ajustamento de Conduta. Entretanto, as denúncias recorrentes e os relatórios da Sudema indicam que as medidas ainda são insuficientes para resolver o problema de forma estrutural.


João Pessoa vive um momento estratégico. O desafio agora é transformar o sucesso de marketing em desenvolvimento sustentável, garantindo que as praias tão compartilhadas sejam, de fato, um patrimônio preservado para moradores e visitantes.


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