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Em 20 anos, o que parecia impossível virou rotina e conectou o agricultor nordestino a um caminho transformador

Atualizada em 26/06/2026 às 14:50 Por Por Richelle Bezerra e Brenno Cardoso

Em um Brasil onde o campo é uma das bases da economia familiar, o microcrédito rural passou a desempenhar, ao longo dos anos, um papel fundamental para o desenvolvimento do País, principalmente no Nordeste. Linhas de financiamento viraram caminhos para a transformação de milhares de famílias. Uma dessas iniciativas, em especial, mudou a forma como agricultores e produtores rurais enxergam o crédito, antigamente visto como "distante" ou "burocrático" demais.

O Agroamigo, do Banco do Nordeste (BNB), surgiu com esse objetivo: quebrar barreiras, aproximar-se do público-alvo e oferecer um apoio que vai além do crédito. Nesta reportagem especial, mostramos como isso vem ocorrendo atualmente, mais de 20 anos depois da criação do programa. Mergulhamos no dia a dia de produtores rurais na Paraíba e mostramos um passo a passo do microcrédito, que já beneficiou mais de 3 milhões de pessoas, nos nove estados nordestinos, norte de Minas Gerais e Espírito Santo, áreas de atuação do BNB. 
  


úmeros mostram que investimentos e orientações transformaram o Nordeste







Aos 27 anos, Djavan Luciano Rodrigues se divide entre o trabalho na casa de farinha e as estufas de hidroponia, onde cultiva coentro e alface. Ele mora em Mogeiro, a 110 quilômetros de João Pessoa, no agreste da Paraíba. O pai, Francisco Luciano Rodrigues (foto abaixo), passou anos plantando amendoim antes de erguer a casa de farinha, negócio que hoje alimenta a renda de pelo menos seis pessoas, entre filhos e colaboradores. As principais produções são: farinha, goma, massa de bolo e beiju. 
Ao longo dos anos, Djavan decidiu que queria algo a mais. Algo seu. 

Em plena pandemia da Covid-19, incentivado pelo irmão, começou a pesquisar sozinho, no YouTube, informações sobre hidroponia, técnica de cultivo sem solo em que as plantas crescem suspensas em estruturas que recebem solução nutritiva, balanceada com água e nutrientes essenciais ao seu desenvolvimento. Assim, montou, inicialmente, um sistema pequeno, que testou, errou e ajustou. 

"Decidi planejar algo mais estruturado", conta. Pegou emprestado dinheiro com o irmão, economizou o que pôde e ergueu a primeira estufa, um abrigo de cultivo que se transformou e hoje mantém 144 pés de alface por semana e 100 pés de coentro. Sem agrotóxico. Com foco na água, nutrientes e no conhecimento que Djavan foi acumulando aos poucos, sozinho.



O diferencial que Djavan aprendeu a valorizar não é só técnico. "Minha alface fica pronta uma semana antes do cultivo tradicional. E os clientes falam que dura mais de 15 dias na geladeira". A demanda cresceu. O jovem produtor virou referência na região: recebe visitas de escolas, atende curiosos, responde pedidos de mentoria no Instagram. Na conta @di_hidroponia, posta registros da produção que viraram vitrine de um jeito diferente de cultivar no município.



Filho de assentado, Djavan sabia que o crédito rural existia. Só não achava que era pra ele. Em meados de 2025, estava decidido: tirou a carteira de agricultor e foi ao Banco do Nordeste. "Me surpreendi com a receptividade", lembra. Ele e a esposa (foto abaixo) fizeram um contrato, cada: R$ 12 mil para ele, R$ 15 mil para ela, pelo Agroamigo, programa de microcrédito rural do Banco do Nordeste (BNB).

Com os recursos liberados, Djavan construiu duas novas estufas. Uma ainda estava sendo finalizada durante a nossa reportagem. A quarta já estava nos planos para este ano. A meta era triplicar a produção. "Vou tirar mais desse sistema do que a gente tira na casa de farinha", revela. 

Um detalhe que o jovem produtor faz questão de destacar é que o BNB não se limitou a liberar o dinheiro. "Depois que o crédito foi aprovado, vieram saber se o dinheiro estava sendo aplicado mesmo no projeto. Acompanharam, com reuniões e orientações".  

E assim, no assentamento onde seu Francisco Luciano plantou amendoim e depois fez farinha, o filho mais novo aprendeu que o futuro pode ser desafiador, mas com dedicação e resiliência possibilita novos caminhos. 









No município de Pitimbu, litoral sul da Paraíba, a rotina de trabalho no campo começa cedo para Edjane de Assis Lopes. Entre plantações de mamão, banana e macaxeira, a agricultora conduz uma produção que, hoje, garante renda e estabilidade para a família, mas que carrega uma história de muita luta, iniciada ainda na infância.

Filha de agricultor, Edjane cresceu em um pequeno vilarejo da zona rural de Pitimbu, acompanhando seu pai, Isaías Bandeira Lopes, nas atividades do campo. Ainda pequena, era levada por ele para as plantações. Aos cinco anos de idade, ajudava no cultivo e também na venda dos produtos em povoados vizinhos, como Acaú, também na Paraíba; e Carne-de-Vaca, no estado vizinho de Pernambuco.

Aos 17 anos, após o primeiro casamento, Edjane continuou trabalhando na agricultura, mas prestando serviço para outras pessoas. Mesmo assim, nunca deixou de pensar em ter uma área própria pra produzir. Treze anos depois, ao passar pelo divórcio, viu naquele momento uma chance de mudar de vida.

Foi nesse período que conheceu o atual companheiro, Rogaciano Lourenço dos Santos (foto abaixo), que passou a dividir com ela o trabalho no campo. “Eu olhei pra ele e disse: a gente já sabe trabalhar, já conhece a terra. Falta só uma oportunidade. Vamos fazer um empréstimo e tentar construir o que é nosso”, ressaltou Edjane. Em 2019, conseguiu o primeiro financiamento pelo Agroamigo. A partir daí, iniciou uma relação contínua com o programa, realizando novos financiamentos para fortalecer a produção.

O começo


O trabalho do casal começou em uma área de cinco hectares conquistada pelo pai de Rogaciano por meio da reforma agrária, o senhor Jose Lourenço dos Santos Filho. Parte desse terreno foi cedida ao casal, que passou a utilizar o espaço para produção, principalmente, de banana, macaxeira e mamão, o que Edjane aprendeu a plantar com o pai, Isaías.

Segundo Edjane, o modelo de acompanhamento e as condições oferecidas pelo Agroamigo trouxeram mais segurança para investir na produção. “A terra responde ao que a gente faz por ela. Quando tem investimento e cuidado, ela retribui com produção e oportunidade”, ressaltou.

O acompanhamento técnico do BNB foi um diferencial para a relação de Edjane com o crédito. "As visitas de acompanhamento da produção nos ajudaram a aplicar os recursos de maneira mais assertiva", conta. 

>> Ouça o que diz Edjane sobre o uso do microcrédito rural para gerar melhores resultados (.mp3)

Atualmente, a agricultora tem na atividade rural a principal fonte de renda para a sua família. Além da produção, também adota práticas de preservação ambiental, mantendo áreas protegidas na propriedade; e participa de movimentos sociais de apoio à classe trabalhadora rural, buscando melhores condições de preço e de trabalho para a categoria.









Maria Solange de Oliveira Matos mora em Várzea Comprida dos Oliveiras, comunidade que fica em Pombal, a 376 quilômetros de João Pessoa, no sertão da Paraíba. Lá, ela construiu uma história que hoje é contada também em outras cidades. Solange, como é conhecida, virou referência na agricultura familiar e participa de eventos, fóruns e mesas de políticas públicas mostrando o seu exemplo de vida em vários lugares. Já fez isso, inclusive, em São Paulo, Brasília e Piauí. 

Aos 51 anos, Solange nasceu no Sítio das Oliveiras, onde se criou, casou, teve filhos e, com as próprias mãos, transformou uma pequena roça familiar em uma das histórias mais inspiradoras do microcrédito rural no Nordeste. "Nunca tive 'rios' de dinheiro na minha mão. Sempre foi na luta, no campo, na enxada, nos calos, nos sacrifícios", lembra ela.

Ainda adolescente, fundou a associação de moradores da comunidade. Ela entendeu cedo que o coletivo é o caminho. E foi o coletivo que a levou a novas oportunidades.

Visão estratégica

Os pais de Solange plantavam algodão, feijão, arroz e milho, culturas do período invernoso, totalmente dependentes da chuva. Ela via esse limite como uma janela de oportunidade. "O mercado precisava de mais produto. A gente despertou que essa comunidade tinha um potencial que podia implementar: a hortaliça na feira livre. Um cultivo bem mais rápido. E sem depender só do inverno", destaca. 

Foi assim que ela começou a vender coentro, alface, cebolinha e pimentão na feira. Mas, a água, mesmo em escala menor, ainda era necessária. Sem ela, a hortaliça murcha. E foi na busca por alternativas pela água que Solange encontrou o Agroamigo.

"A gente queria perfurar poços artesianos. Foi aí onde entrou o microcrédito rural", destaca. Desde o primeiro financiamento, em agosto de 2016, Solange não parou mais. Ao todo, já foram oito operações contratadas. "Com o nosso exemplo, mais pessoas da comunidade passaram a procurar o BNB. O crédito veio como oportunidade para todos que tinham coragem de trabalhar. Tinham terra, mas não tinham recurso", lembra.

>> Ouça o que diz Solange sobre a experiência contada em outros lugares do país (.mp3)

Recurso para furar poços. Para comprar caixa d'água. Para adquirir motor. Para montar kits de irrigação. 
Na propriedade de Solange, cada item conta uma história de crédito bem aplicado. A comunidade tem, inclusive, um trator de pneu grande, adquirido coletivamente, disponível para os sócios da associação. Solange nunca pensou apenas em si.

A história da líder comunitária está presente está na padaria que ajudou a construir na localidade. "Já teve Agroamigo por aqui também", ressalta, citando os dois financiamentos que deram estrutura ao empreendimento coletivo das mulheres da comunidade.




E se há uma reflexão que resume o que o trabalho duro e o crédito bem aplicado podem gerar, é esta: a filha de Solange, engenheira civil, hoje executando a obra de um atacadão em Pombal, uma das maiores construções da cidade. E o filho que está no sexto período de Agronomia, já com um Pronaf Jovem no nome. "Meus filhos nunca estudaram em escola particular. Nunca tive a oportunidade de ter muito dinheiro. Sempre foi na luta. O que conquistei para eles, hoje gera resultados", conta Solange, orgulhosa. 

"Reunião, encontro, palestra, seminário, discussão, movimento, articulação... eu sou participativa", define ela, com um sorriso nos olhos.

Solange cultiva em Várzea Comprida dos Oliveiras não só coentro e alface. Ela é prova viva de que, quando o crédito chega junto com confiança e acompanhamento, ele não financia apenas um projeto... proporciona uma nova vida.










    

     Lançado em 2005, o Agroamigo é o maior programa de microcrédito rural produtivo e orientado do Brasil, operado pelo Banco do Nordeste em nove estados nordestinos, além do norte de Minas Gerais e do Espírito Santo.

    O programa atende agricultores familiares enquadrados no Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) e funciona em duas modalidades: o "Agroamigo Crescer", voltado para os agricultores de menor renda, do Grupo B do Pronaf, com renda bruta anual de até R$ 50 mil; e o "Agroamigo Mais", que atende agricultores com renda de até R$ 360 mil anuais. Mas, o que diferencia o Agroamigo não é só o dinheiro: é o assessoramento técnico contínuo, que inclui visitas presenciais, orientações sobre gestão e planejamento, garantindo que o crédito se multiplique em produtividade.

     
Na entrevista abaixo, o gerente do Agroamigo na Paraíba, Adoniran Viana, fala sobre a importância do programa e destaca as linhas do "Agroamigo Crescer", foco do BNB para fortalecer os agricultores de menor renda.
 






O Passo a Passo: Desmistificando o Microcrédito Rural

     Apresentamos, a seguir, um roteiro simples e acessível para quem quer começar uma jornada com o Agroamigo do BNB. Foi assim que Djavan, Edjane e Solange, nossos personagens nessa reportagem especial, seguiram e, hoje, estão colhendo os frutos dessa iniciativa.